22 de abril de 2013


Por Oti Santos*
Foto reprodução.
Erguida em 1938 pela Companhia Ford Industrial do Brasil na sequência das edificações da Vila Americana, então conjunto mais charmoso da “Bela Terra”, destinado a alojar os principais representantes da companhia e seus familiares e integrando um contexto de 8 casas - sendo 7 residenciais e 1 destinada aos visitantes, autoridades e técnicos em trânsito; 1 hospital; 1 escritório e 1 clube destinado aos bailes e jogos de mesa (Club House) -, foi destinada especialmente a abrigar o magnata americano Henry Ford quando viesse ao Brasil visitar o projeto que objetiva a produção de látex natural em larga escala.

A visita chegou a ser planejada, inclusive com a remessa de Detroit, nos EUA, para Belterra de um automóvel Ford, capota fechada, logo batizado de “OP-1”, o número das placas nele afixadas. Ocorre que a visita, sempre adiada, nunca acontecera, e o primeiro ocupante da Casa, reservada apenas para esse fim especial, “novinha em folha”, não foi Ford e sim, serviu para o pernoite do Presidente Getúlio Vargas em outubro de 1940.

Recebido com euforia pelo principal staff da Companhia Ford e pelos trabalhadores, se utilizou também do “bem-cuidado” automóvel para as suas locomoções a partir do ancoradouro flutuante do Porto Novo, onde aconteceram as concorridas recepção e despedida ao presidente.

Na Vila, da vasta programação, da qual constava a inauguração da Praça Getúlio Vargas, na Cabeça da Serra; da Creche Darcy Vargas, no Coração da Estrada 8; de um encontro promovido pela CFIB para uma exposição técnica sobre o projeto, bem como sobre a relação contratual com os empregados, assunto do maior interesse do presidente “trabalhista”, pois a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho criada por ele em 1943 já estava planejada); da exibição do processo de enxertia da seringueira pelo “Mestre Sena”, empregado escolhido para essa tarefa técnica e da própria Casa 1, onde Sua Excelência e comitiva repousaram.

Sempre tratada como um ícone, após a extinção da Companhia Ford e a partida dos americanos, sua destinação continuou a mesma por muito tempo, inclusive para recepcionar a partir do governo Eurico Dutra o agrônomo e pesquisador paulista, adjunto do então ministro da Agricultura Daniel de Carvalho, Felisberto Cardoso de Camargo, principal responsável pelas Plantações Ford de Belterra e Fordlândia, que absorveu o patrimônio da Ford após a indenização simbólica feita pela União.

Há relatos de que em 1959, nela também foi recepcionada para um almoço uma comissão de autoridades do Estado também integrada por um grupo suprapartidário de deputados federais, dentre os quais o então deputado maranhense, hoje senador e ex-presidente da República e do Senado Federal José Sarney.

Após isso, o imóvel passou a ser colocado à disposição dos administradores locais, embora a maioria deles não optasse por ali se instalar. Todavia, o doutor Francisco Antônio das Chagas, nomeado administrador de Belterra, pelo Diretor do ERT (Estabelecimento Rural do Tapajós) Abnor Godim, recém-casado com uma belterrense, dela fez uso como morada em 1960. Quando retornou ao cargo pela segunda vez, preferiu ocupar a “Casa 2”. 

Mesmo com o surgimento e a autonomia administrativa conquistada com a instalação da Base Física de Belterra, vinculada à Delegacia do Ministério da Agricultura no Pará, o imóvel continuou sendo usado para reuniões, recepções e abrigo temporário para visitantes ilustres.

Sem utilização e literalmente desocupada a partir do início da década de 1990, período em que também perdemos o funcionamento do Hospital Henry Ford, eis que surge um interessado em cuidar do imóvel. E, assim, em 01.01.1997, quando da instalação do município, encontramos a casa ocupada pela senhora Olga Sarmento, “caseira do irmão”, agrônomo dos quadros do Ministério da Agricultura.

Após três anos de constantes conversas com a mesma, foi possível convencê-la que ali se tratava de um patrimônio histórico e dela desocupada a cidade precisava, para ser destinada a sediar um órgão da administração pública, quem sabe, por sua importância, uma Biblioteca.

A pedido da mesma, o doutor David Sarmento foi procurado para se saber das suas intenções e se portava algum despacho se quer, do Delegado Federal de Agricultura ou do próprio Ministro da Pasta, com os quais se fazia necessário à cordialidade, pois com eles o recém-instalado município estava comungando de um bom relacionamento, e contando, inclusive, com muita sensibilidade quanto à liberação do patrimônio móvel e imóvel, e até de servidores no processo de instalação da nova cidade.

Em Santarém, foi iniciada a série de visitas ao senhor David Sarmento com esse intento. Porém, a conclusão chegada foi a de que nada de formal sobre a ocupação da casa possuía, apenas, estando ela abandonada, resolveu se apossar da mesma, fato comum em Belterra naquela época.  E o fez por se achar merecedor, em razão de ser filho da terra, amar Belterra e desta Vila por algum tempo ter sido administrador, além do mais, com o objetivo de preservá-la e livrá-la do abandono a que estava relegada.

Mesmo assim, e entendendo as razões por ele levantadas, o prefeito recorreu à autoridade e as prerrogativas de gestor, deixando claro que o município também não pretendia se indispor do espaço diante das necessidades para abrigar as secretarias da nova estrutura municipal.

Novas conversações com a “caseira” foram reatadas, que alegou não contar com “um teto” para abrigar-se ao deixar a Casa 1, bem como com um emprego que no futuro lhe propiciasse um aposentadoria junto ao INSS.

As providências foram logo encaminhadas e meses depois, a casa que pertencia a um motorista de prenome “Marcelino”, na antiga “Pilão do Meio nº 14”, hoje “Tv. Vereador Manoel Motta”, que estava deixando Belterra com a família com destino Porto Trombetas foi adquirida. E após uma breve reforma, colocada ao seu dispor com o convite também para assumir a governadoria do alojamento conhecido como “Unidade”, onde, por oito anos, serviu dignamente como governanta naquele prédio público.

Com o objetivo alcançado e sem embaraços, em 10.03.2000 foi sancionada a Lei Municipal 056/00, dispondo sobre o tombamento para o patrimônio histórico e cultural do município do imóvel, passando à municipalidade a responsabilidade por sua preservação e uso. Porém, uma outra preocupação passou a desafiar a administração. Suas instalações físicas estavam em estado precário e com risco de ruir.

No último ano daquela gestão, apesar de não contar com recursos conveniados para a obra, os reparos necessários a salvá-la com a parcial recuperação foram determinados, valendo-se dos recursos próprios possíveis na ocasião.

Nessa época, o prédio já abrigava a Biblioteca Pública Henry Ford e a Secretaria Municipal de Turismo e Meio Ambiente e, portanto, bastante visitado. Mesmo assim, contando com a sensibilidade dos seus responsáveis Raimunda Torres e Chardival Pantoja a reforma física foi iniciada.

Com o prédio adernando, a equipe se valeu de equipamentos conhecidos como “macacos hidráulicos” para equilibrá-lo e concluir a tarefa em 12.04.2004, com o mestre de obras Manoel Raimundo M Pereira recebendo pela então recuperação da planta baixa da Casa, a importância de R$ 2.500,00.
* Jornalista e ex-prefeito de Belterra. 

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