27 de abril de 2013

Foto reprodução / Tribunaitb
O preço da farinha vem aumentando constantemente. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (Dieese) nos últimos 12 meses, o alimento indispensável na mesa dos paraenses sofreu um aumento de mais de 139%. Mas, qual o motivo? Por que isto está acontecendo?

Antes de continuar escrevendo este texto, gostaria de deixar bem claro que este, em hipótese alguma, tentará se impor como verdade absoluta. A ideia é simplesmente levar o leitor a refletir sobre este assunto em busca de causas, consequências e soluções. 
Na busca pelas causas deste aumento de preço, vou começar escrevendo sobre minha comunidade(comunidade do Tracoá*). Eu nasci e cresci vendo o meu pai fazendo farinha. Na década de 90, no Tracoá a farinha era uma das principais fontes de renda. Eu ainda nem sabia o que era farinha e mamãe já levava eu e minha irmã para a casa de farinha, lá ficávamos deitados em redes, enquanto ela e meu pai trabalhavam duro na “fabricação” de farinha para comprar o leite, fraldas e tudo o que precisávamos(ou melhor, tudo o que eles podiam nos dar).
Era uma vez uma comunidade chamada de Tracoá
O Tracoá tinha dezenas de famílias e era vizinho de várias comunidades (como Morada Nova, São Raimundo e outras). Essas comunidades levavam toda semana centenas de quilos de farinha para a cidade de Santarém. Naquela época o "pau-de-arara**" passava por volta de uma hora da madrugada, rumo à feira livre de Santarém(mais tarde este recebeu o nome de Mercadão de 2000). Da metade do carro para frente, eram só sacas de farinha. No sábado, dia preferido dos agricultores para irem à feira, o pau-de-ara ficava super-lotado. É claro, além da farinha, os agricultores também levavam o feijão, arroz, frutas (como banana, abacate, laranja, tangerina), verduras e legumes etc.

Eu tinha apenas 8 anos e algumas vezes acompanhava meu pai quando ele ia vender seus produtos na feira. Na volta, eu aproveitava para ganhar um dinheirinho, vendendo pipoca-doce e/ou picolé.

Mas, enfim... onde quero chegar? Bem, vamos lá. O que posso afirmar é que naquela época a produção de farinha era abundante naquelas comunidades, porém haviam alguns problemas, os quais listo os mais graves abaixo:     

  • No Tracoá só havia uma escola (e esta só tinha até a quarta série do primário). Para piorar teve um ano, que só teve primeira e segunda série do primário. Nesse ano, eu, minha irmã e várias outras crianças e adolescentes tínhamos que andar mais de 9 km todo dia, a pés, em busca de cursar a terceira e quarta série em uma escola que ficava na comunidade da Morava Nova.  
  • Energia elétrica? Ainda nem sonhávamos com isto. A iluminação nas casas ficava por conta das lamparinas e dos lampiões à gás.  
  • Água encanada também era outra coisa que não tínhamos. Os moradores tinham que “puxar”(manualmente) água de um poço com mais de 90 metros de profundidade. Agora imagina você trabalhar o dia todo na roça e a tarde ainda ter de puxar água em um poço deste? Lembrando que, cada puxada saia apenas 20 litros de água, então, dependendo do tamanho da família e/ou das necessidades, um pai de família puxava água várias vezes por dia. 
    Poço onde os moradores do Tracoá puxavam água
  • As estradas, devido a argila(barro) da região, em dias de chuva ficavam intrafegáveis, lisas feito sabão. Por muitas vezes, os agricultores tinha que empurrar o pau-de-arara para tirar o mesmo de atoleiros. As estradas só recebiam melhorias em época de campanha eleitoral.
  • Acrescente à esses problemas acima, a ausência de comércio, de açougue e etc. No Tracoá haviam apenas duas pequenas “tabernas” (pequenos comércios), mas como não havia energia elétrica, as mesmas só vendiam produtos que não precisassem ser congelados e a quantidade de produtos era bem limitada. Para comprar carne, por exemplo, a pessoa teria que comprar em Santarém (há aproximadamente 37 km) ou no Portão de Belterra, à aproximadamente quatro quilômetros (em dias de chuva, esse trajeto tinha que ser feito à pés).
É claro que, citei apenas a comunidade do Tracoá, pois tenho conhecimento da localidade, no entanto, a realidade da maioria das comunidades da região era bem parecida com a do Tracoá.

O êxodo rural
Ora, diante de todos esses problemas e em busca de estudos para os filhos, muitas famílias tiveram que deixar a comunidade, em busca de outras comunidades maiores (onde houvesse escolas) ou das cidades. A nossa família foi uma, que foi para o centro de Belterra em busca de escola para mim e minha irmã.

Anos mais tarde (próximo ao ano 2000), a comunidade já estava um pouco menor, devido o êxodo relatado acima. Nessa época, não só o Tracoá, mas todas as comunidades do planalto próximo à Santarém e Belterra passaram por uma nova fase: a chegada dos sojeiros (vindos principalmente do Mato Grosso).

Diante dos problemas relatados acima, era óbvio que muitos moradores queriam “se livrar” daquela situação e ir em busca de novas oportunidades. Isto facilitou a venda das propriedades aos atravessadores (que eram pessoas que compravam terrenos para os sojeiros). Lembro-me que na época que começaram comprar terrenos no Tracoá, eles (atravessadores) pagavam aproximadamente R$ 300,00 por hectare, um preço irrisório quando comparado ao preço das terras que aqueles sojeiros haviam vendido suas terras no Mato Grosso e outros estados. Mas, isto não é um problema do Tracoá, é um problema da Amazônia, comprovadamente nossas terras sempre foram mais baratas que das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, isto tem incentivado a vinda da soja e de outras monoculturas para a Amazônia. Mais tarde, o preço da hectare na mesma comunidade chegou a mais de R$ 1.000 (mesmo assim, ainda é preço muito baixo, quanto comparado à outras regiões).

Como várias pessoas começaram a vender seus terrenos, o vizinho da direito já havia ido embora, o terreno da esquerda já estava tomado pela soja, quem ficava “ilhado” em meio a essas plantações de soja de certa forma se sentiam “forçados” a saírem também. Caso contrário, continuariam vendo suas plantações morrendo, devido a aplicação de herbicida nas lavouras de soja ao lado(sim, isto mesmo. pessoas passaram a perder plantações, devido o herbicida aplicado ao lado). Além disto, havia a falta de informação, o medo de contaminação pelo veneno e etc. Tudo isto somou para a situação atual do Tracoá: atualmente apenas duas famílias residem na comunidade, a escola foi derrubada e até as duas igrejas que existiam (uma Católica e outra da Assembleia de Deus) foram retiradas.

Antes de fazer esta postagem fui ao Tracoá e percorri toda a sua extensão. Pude comprovar, que pouquíssimas árvores ainda continuam em pé. Também encontramos “árvore de lei” - como a Cantanha-do-Pará - mortas em meio às plantações.
No Tracoá: Onde existia agricultura familiar, agora é 100% monocultura.
E pra onde foram os moradores? Grande parte dos moradores do Tracoá e das comunidades vizinhas atualmente residem na cidade de Belterra, em sua maioria no “Trevo de Belterra”, outras foram para Santarém, comunidades do Tabocal e outros. Devido isto, muitos desses não tem mais lavoura para continuarem plantando a mandioca (matéria prima usada na fabricação da farinha). E por que deixaram suas terras? Grande parte, pelos motivos já explicitados acima.

Segundo dados, pelo menos sete comunidades da nossa região foram extintas devido a plantação de soja. O Tracoá ainda não entrou nesta lista, mas deve entrar em breve. 

Mas, afinal, então podemos afirmar que a causa do aumento no preço da farinha foram os sojeiros? Na verdade, eu não diria que a culpa foi diretamente dos sojeiros e sim do governo que até então não apresentou um plano eficiente capaz de conter o êxodo rural ou melhor, um plano de incetivo à agricultura familiar. 

Atualmente parte dos problemas relatados acima já foram parcialmente resolvidos. Na cidade de Belterra, por exemplo, a maior parte da zona rural já tem energia elétrica (atendidas através do Luz para todos), outras já são atendidas por ônibus que todos os dias levam os estudantes para a cidade para continuarem seus estudos (isto, a nível de Ensino Médio). Logo, se os estudantes quiserem cursar um nível superior, os mesmos terão que se deslocar para Santarém. No centro de Belterra já alguns núcleos de faculdades (particulares) e tem o PARFOR (mas, este atende é voltado para formação de professores). 

Aí, aparece um outro “probleminha”. O estudante da zona rural que vai à cidade cursar o Nível Superior, chega à Universidade cheio de sonhos e a maioria jamais pensa em voltar à morar, viver e trabalhar na zona rural. Eles querem ser engenheiros, cientistas disto ou daquilo, médicos e etc... mas afinal, a próxima geração não vai ter agricultor? Precisamos levar educação à todas as comunidades, mas, é certo que quanto mais chega a educação às comunidades, mas pessoas sentem vontade de migrar em busca dos centros urbanos em busca da conclusão dos estudos e mais pessoas não sentirão mais o desejo de voltar. Entenderam a complexidade do caso?

Um das formas de amenizar o problema, é através da implantação de cursos técnicos nas zonas rurais. Em Belterra, por exemplo, tem a Casa Familiar Rural, localizada na Comunidade do Prata, onde existem duas turmas de ensino médio/técnico em agropecuária com 30 alunos cada.  Mas, aí fica as peguntas: Existe algum plano do governo para incentivar estes alunos à ficaram nas suas comunidades, após eles terminarem os cursos? Haverá algum financiamento para o jovem empreendedor rural? 

À nível geral, podemos dizer que o governo não tem um plano para conter o êxodo rural (ou melhor, uma plano de incetivo à agricultura familiar). Fica aqui uma sugestão aos pesquisadores, para buscarem soluções para este problema. Quando eu falo em solução, não estou falando em buscar formas de sobrevivência aos moradores da zona rural. Sobreviver (no sentido literal), vários conseguem sobreviver apenas vendendo artesanatos de sementes ou, como dizem alguns, ganhando um Bolsa Família. Estou falando de levar qualidade de vida, educação(fundamental, médio e superior), financiamento para os pequenos produtores, financiamento via Banco BASA de máquinas agrícolas para Cooperativas e Associações de Produtores, assistência técnica de fácil acesso, incentivo à criação de cooperativas e etc... de forma que o agricultor se sinta bem na zona rural  e que os filhos dos agricultores sintam-se motivados à continuarem lá também.

Enquanto isto não acontece, o êxodo rural continuará acontecendo, as pessoas continuarão deixando (ou vendendo) suas propriedades e correndo em busca de melhorias e enquanto isto a farinha vai continuar aumentando de preço. Na verdade não só a farinha, quem vai ao Mercadão 2000, percebe que a cada dia os produtos produzidos pela agricultura familiar estão aumentando de preço, e porque estão aumentando? É simples, a lei da oferta e da procura explica isto. Portanto, a farinha pode ser apenas a ponta do iceberg... vários produtos, produzidos pela agricultura familiar poderão continuar subindo de preço a cada dia ou até mesmo faltando em um futuro bem próximo.

* Situada no município de Belterra, na Estrada 07, entre o Portão de Belterra e a comunidade da Morava Nova.    
* Caminhão com carroceria de madeira, utilizado para o transporte de pessoas e cargas. 

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