8 de janeiro de 2012

Veja abaixo um relato triste e preocupante sobre os haitianos que em busca de dias melhores tentam fugir em direção ao nosso Brasil e no caminho são vítimas de diversos criminosos.
A antropóloga Thaisa Lumie Yamauie, 25 anos, voluntária do Centro de Direitos Humanos e Educação Popular do Acre, aliou-se ao haitiano Esdras Hector, no final de dezembro, para realizar entrevistas com grupos de imigrantes haitianos que sofreram abusos e violências no percurso rumo ao Brasil.
Os imigrantes, que buscam refúgio em massa no Acre, estão sendo vítimas de extorsão, roubo, estupros e mortes quando percorrem territórios do Peru e da Bolívia. A onda migratória por melhores condições de vida teve início em 2010, após o terremoto que devastou o Haiti.
Paulista de Campinas, Thaisa Yamauie se mudou para o Acre há quatro meses, após o marido ter sido contratado como professor universitário. Formada na Universidade Federal de São Carlos, com especialidade em migrações, conseguiu reunir relatos detalhados do trajeto e dos acontecimentos que envolvem a diáspora haitiana em solo acreano.
Durante os dias que passou no município de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, a antropóloga ficou impressionada com a interação entre a população local e os haitianos.
- Quase não há comunicação porque uns falam português e outros crioulo, mas se entendem. Isso é um sinal de solidariedade. As pessoas da cidade dão trabalho, abrigam, alimentam. Também chama a atenção a decisão do governo do Acre de prestar ajuda humanitária. Talvez isso não tivesse acontecido em outro estado brasileiro na mesma situação – analisa Thaisa Yamauie em entrevista exclusiva ao Blog da Amazônia.
A antropóloga disse que o Brasil poderia mudar o paradigma de políticas de migração que vem sendo adotada em países que recebem ondas migratórias. No mundo inteiro, quando considerados “ilegais”, os imigrantes são tratados com muita violência, quando não portam documentos.
De acordo com Thaisa Yamauie, essa condição, imposta pelo fato de não ter documentos, leva aos empregos mais degradantes e a outras situações onde os direitos humanos são violados, o que inclui abusos como escravidão, violência, incluindo, sexual.
- A lei dos países não protege essas pessoas e isso precisa ser mudado. Ondas migratórias como essa que o Brasil lida atualmente, especialmente na fronteira do Acre com a Bolívia e o Peru, não podem ser contidas apenas com o fechamento de fronteiras. Uma decisão nesse sentido agravaria a crise humanitária que está surgindo. Se a fronteira fosse fechada, os haitianos continuariam se deslocando e conseguindo ingressar no território brasileiro, e passariam a ser encarados pela sociedade como imigrantes “ilegais”. Isso seria pretexto para que ficassem ainda mais vulneráveis aos abusos dos quais já estão sendo vítimas.
Por não ter solicitado permissão para identificar os imigrantes haitianos publicamente, Thaisa Yamauie pediu para que constasse apenas as iniciais de dois nomes. Veja a entrevista:
O que os imigrantes relataram a você sobre os abusos e violências sofridos em fugas rumo ao Brasil?
A primeira entrevista foi realizada com o grupo que chegou à Brasiléia no dia 23 de dezembro. Ao todo se reuniram para a entrevista cerca de 20 pessoas, que confirmaram e detalharam os relatos de A.P., porta-voz do grupo. O grupo, formado por 21 haitianos que não se conheciam antes de chegar ao Peru, relatou que em seu trajeto, antes de chegarem à Ibéria e Iñapari, não sofreram quaisquer abusos ou hostilidades.
Onde o grupo se formou?
Em Iñapari. Ficaram hospedados em um hotel da cidade peruana, onde conheceram um haitiano apelidado de “Primo”, que organizava os grupos que seriam levados ao Brasil. De Iñapari, seguiram em direção à Ibéria, outra cidade peruana, transportados por taxistas relacionados com “Primo”. Chegando em Ibéria, tiveram que esperar, por ordem dos “coiotes”, o momento certo para seguir viagem. Em Ibéria, alguns dos haitianos sentiram que pessoas, aparentemente peruanos, os observavam atentamente, especialmente aos que pareciam ter objetos de valor.
O que aconteceu a partir de lá?
Quando chegou o momento de saírem de Ibéria, por volta das 17h30 do dia 22, os motoristas que os transportariam disseram que precisavam deixar todos os telefones celulares com eles, prometendo devolvê-los ao final do trajeto. Os haitianos seguiram em caminhão sem placa. O líder dos motoristas é conhecido como “Mário”. É uma pessoa com deficiência física. Depois de dez minutos de viagem, “Mário” sai do trajeto principal e entra em uma outra estrada. Parou o caminhão e disse que iria fazer contato com a polícia para ver se o caminho já estava liberado. Ele recebe uma ligação e continua a viagem.
O que o grupo encontrou?
Depois de 30 minutos, encontram um motociclista que os ultrapassa. Logo depois, escutam um tiro. O motorista do caminhão para e outra pessoa entra na cabine do motorista e começa a dirigir o caminhão. Logo depois chegam outras cinco pessoas que os abordaram com armas e lanternas nas mãos e na cabeça. A escuridão e as lanternas miradas para as faces dos haitianos os impediam de ver a face dos agressores, que estavam também com máscaras cobrindo a face. Os cinco agressores amarraram os homens e tiraram todas as coisas de valor dos haitianos, os revistando e ameaçando para que entregassem seus pertences. Os agressores tinham informações sobre quem tinha bens de valor. Já sabiam inclusive os nomes das pessoas que tinham mais valores, e com violência tiraram os pertences dos haitianos. O motorista também tinha informações sobre quem tinha mais valores, e durante a ação não foi amarrado e nem visto entre os agressores.
O que aconteceu com as mulheres naquele momento?
Não houve violência com as mulheres. Apenas os homens foram amarrados e espancados. Depois de tirarem todas as coisas de valor, os cinco agressores partiram, deixando os haitianos para trás. Após poucos minutos surgem diversos homens vestidos como policiais com uniformes pretos que os ajudam a se soltar. Os haitianos não ouviram nenhum barulho de carros, mas havia um carro esperando por eles, pois é prática comum que se troque de carro quando chegam à Bolívia. Os homens vestidos como policiais não procuraram os agressores e impediram os haitianos de procurá-los. Foram os homens vestidos como policiais que levaram os haitianos até o carro. O carro faz três viagens. Na primeira, os haitianos afirmam que o motorista que os guiava era o mesmo que os havia roubado. O mesmo motorista os levou até a fronteira e novamente tentou tirar os pertences das mulheres que transportava. Todos eles foram deixados numa montanha entre a Bolívia e o Peru,onde conseguiram seguir a pé até um ponto de táxi e seguiram viagem na Bolívia.
Qual país os haitianos consideram mais perigoso?
Eles dizem que é na fronteira entre o Peru e a Bolívia que ocorrem os roubos e a violência, a cerca de 40 minutos depois que saem de Ibéria, em uma estrada clandestina. Até a hora do roubo eles não haviam passado por nenhum posto policial, pois haviam desviado do caminho para desviar do posto da polícia no Peru. Depois do roubo, passaram por três postos policiais bolivianos, por onde passaram sem problemas nos táxis.
O que contou o outro grupo de haitianos?
A segunda entrevista foi com o grupo que chegou dia 14 de dezembro. O grupo, de 20 pessoas, também foi organizado pelo haitiano conhecido como “Primo” e guiado pelo motorista “Mário”. O grupo saiu de Ibéria às 21 horas do dia 13 de dezembro, não desviou do caminho para a estrada clandestina, e o motorista os levou até o posto policial do Peru. Depois de mais ou menos duas horas que saíram de Ibéria, chegaram num posto onde os policiais tomaram alguns pertences de valor dos haitianos – eletrônicos na maioria, inclusive um piano digital. Depois de tomar alguns pertences e o dinheiro de algumas pessoas, eles liberam os haitianos. O grupo seguiu viagem a pé por três quilômetros até chegar a um segundo posto, na verdade uma casinha com inscrições policiais e bandeiras da Bolívia, mas onde os homens não estavam vestidos com roupas de policiais, mas estavam armados.
O que aconteceu lá?
Outra vez os haitianos tiveram seus pertences e dinheiro tomados pelos policiais do posto. Foram colocados em fila, revistados e tiraram tudo que possuíam com algum valor, como roupas, tênis etc. Após tomarem os pertences e o dinheiro de todos os haitianos, os policiais ainda pediram 20 dólares de cada um para liberá-los, depois conduziram os haitianos para um táxi próximo onde cada um teve que dar 100 dólares para serem levados ao Brasil. O táxi os deixou próximos ao posto policial brasileiro. Este grupo não sofreu violência, apenas teve seus pertences tomados nos postos policiais do Peru e da Bolívia.
E o terceiro entrevistado?
Foi L.C, um dos homens que viu os corpos de dois haitianos mortos numa área de floresta entre Peru e Bolívia. Ele fazia parte do grupo que chegou à Brasiléia dia 23 de dezembro, mas durante o trajeto foi separado do grupo e chegou ao Brasil apenas no Natal.
De onde veio L.C.?
Ele saiu da República Dominicana dia 21 de dezembro, seguiu de avião até a Costa Rica, de lá até Lima, no Peru. De Lima veio para Puerto Maldonado, também de avião, e de lá seguiu de táxi até Iñapari, onde chegou no dia 22 de dezembro. No mesmo dia conheceu e combinou a viagem com o haitiano “Primo” e saiu de Iñapari com o grupo que saiu de Ibéria dia 22 de dezembro e chegou no Brasil no dia 23 de dezembro.
O que contou L.C.?
Ele relatou os mesmos acontecimentos até a abordagem dos cinco homens armados e encapuzados que cercaram o grupo e os roubaram. O caminhão em que estavam saiu de Ibéria às 17h30 do dia 22 de dezembro e, entre aproximadamente 40 minutos ou uma hora depois, foram abordados pelos cinco homens armados. O caminhão havia saído de Ibéria e desviado por um caminho estreito de terra para desviar do posto policial. É um caminho alternativo, utilizado por grupos organizados para transportes clandestinos. No caminho de terra existe um desvio, e foi no desvio que eles foram abordados. Um dos agressores o chamou pelo nome, juntamente com um outro homem, que também foi chamado pelo nome. L.C. não sabe como os homens sabiam seu nome e o do outro haitiano, mas já havia percebido que pessoas os analisavam em Ibéria.
Alguma explicação para isso?
L. C. e o outro homem eram as duas pessoas que mais tinham dinheiro no grupo. Tinham dinheiro suficiente para ir até a Guiana Francesa, que seria seu destino final. De alguma forma os homens que os abordaram sabiam que eles tinham mais dinheiro. Apenas os dois homens foram retirados do grupo, amarrados e espancados, humilhados e jogados deitados no chão onde as formigas os mordiam. O restante do grupo em que estavam continuou viagem. Ele não consegue identificar os agressores, pois usavam máscaras para cobrir a face. Foram levados pelos agressores para dentro da mata. Amarrados e com os olhos vendados, caminharam por cerca de 15 minutos até chegar a um local onde foram jogados no chão. No chão estavam os corpos de duas pessoas.
Eram corpos de homens ou mulheres?
L. C. contou que os corpos eram de um homem e uma mulher. O corpo da mulher estava em estágio avançado de decomposição. A carne havia sido comida por animais e estava se desfazendo, com cheiro muito forte e seus ossos estavam aparentes. O corpo do homem ainda estava íntegro e sem bichos, mas muito inchado.
O que fizeram os agressores?
Eles firmaram que com os outros haitianos não tinham nada, e nada iria acontecer com eles, mas que os dois tinham dinheiro e eles sabiam, e se não dessem o dinheiro ou tentassem reagir, eles iriam matá-los. Eles entregaram o dinheiro e os agressores os deixaram no mato e partiram. Aproximadamente 30 minutos depois, ouviram sons na estrada e gritaram por socorro. Chegaram algumas pessoas vestidas como policiais, que os ajudaram a se soltar e os levaram para seguir caminho, mas os policiais não viram os corpos.
O que mais relatou o haitiano?
L. C. queria voltar para o Haiti e retornar para o local em que o caminhão foi parado para procurar seu passaporte perdido, mas as pessoas vestidas de policiais o impediram de voltar e foram com ele até o posto policial na Bolívia e disseram que ele não deveria voltar para o Haiti. Disseram ainda que ele deveria continuar a viagem até o Brasil, afirmando que no Brasil ele poderia conseguir seus documentos dizendo que havia perdido o passaporte. Ele andou mais três horas dentro do mato, acompanhado da polícia, até chegar ao primeiro posto da polícia boliviana. No posto, a policia boliviana perguntou se eles tinham dinheiro. Eles contaram sua história e disseram não ter nada. A polícia então chamou um táxi e pagou 20 dólares para o táxi os trazer até o Brasil. O taxista os deixou no último posto da polícia boliviana antes do Brasil. Eles chegaram à Brasiléia à pé.
E a sua quarta entrevista?
Foi da mulher que havia relatado para jornalistas ter visto os corpos. Na entrevista que concedeu a mim, ela disse que não viu os corpos, apenas encontrou no caminho o homem que viu os homens.
Quem foi o seu quinto entrevistado?
Foi meu tradutor, o haitiano Esdras Hector, que contou sua história e a história recente de seu país.
E o sexto?
S. S., que faz parte do grupo que chegou em Brasiléia no dia 23 de dezembro, que confirmou os relatos que haviam sido colhidos com o referido grupo no dia anterior. Ainda no primeiro dia de entrevistas, iniciou-se um obstáculo, que no dia seguinte impediu-nos de continuar as entrevistas. As pessoas que poderiam fornecer relatos começaram a impor condições para tal.
Como assim?
Dada a precariedade da vida dos refugiados em Brasiléia, existem muitas carências, muitas pessoas perderam tudo o que tinham no trajeto e chegaram ao Brasil apenas com a roupa do corpo, sem dinheiro, absolutamente desamparadas e fragilizadas pelos abusos sofridos antes de serem alojados na cidade. Muitas das pessoas que vão até elas, para pegar suas histórias, são pessoas que lucram com a venda das histórias.
Desconfiaram de você?
Sim. Houve a desconfiança de que eu e Esdras, que somos voluntários, estivéssemos de alguma forma nos beneficiando de suas tragédias e, tomados pela necessidade, nos pediam algo em troca de suas entrevistas, como roupas, comida, qualquer coisa, que infelizmente não pudemos dar sob o risco de nosso trabalho perder credibilidade. Seria extremamente importante um trabalho delicado de investigação da Polícia Federal e de outros órgãos oficiais para que os refugiados, especialmente as mulheres violentadas, sintam-se seguros para relatar os casos, tendo a confiança e a certeza dos fins para os quais se destinam as entrevistas. Falta a confiança de que o assunto realmente será tratado pela polícia, como deve ser, e que o governo do Brasil realmente se preocupa com as violações de direitos humanos que vêm ocorrendo com os refugiados haitianos, coisa que infelizmente eu como antropóloga não posso lhes dar em apenas dois dias de convivência.
Você gostaria de ter entrevistado, por exemplo, as mulheres que também foram vítimas de violência?
Sim, mas devido aos inconvenientes que citei, não foi possível realizar entrevistas com as mulheres que foram estupradas. Elas estavam muito desconfiadas. Algumas delas, além de outras pessoas, exigiam algo em troca da entrevista, ou que os relatos fossem colhidos por policiais ou pessoas do governo. Conversando com outras pessoas, descobrimos que houve apenas um grupo onde as mulheres foram abusadas. Todas as mulheres estupradas faziam parte do grupo de haitianos que chegou em Brasiléia no dia 10 de dezembro. Foi apenas naquele dia em que houve relatos de estupros.
Onde está Ethvat Cherilus?
Este é outro caso que merece atenção. Uma mala com a bagagem de um haitiano chegou há mais de um mês por meio de um taxista. Ele foi pago para trazer a mala até Brasiléia e cujo dono não apareceu. A mala era acompanhada por alguns papéis, que foram os meios pelos quais descobrimos o possível nome do dono da mala, Ethvat Cherilus. A mala não foi reivindicada por ninguém e o haitiano Ethvat Cherilus não chegou à Brasiléia.
Autor: Altino Machado



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